
Impossível não notar sua presença, em todos os copos, pescoços e tocos de cigarros havia a marca de seus lábios vermelhos, que se destacavam naquela face etérea e no cabelo preto, que se camuflava na noite. Às vezes, seus olhos resolviam combinar com a cor do batom, mas era quase imperceptível, porque ela fugia das luzes. Quanto mais escuro, melhor. À noite há mais possibilidades, mais adrenalina, afinal, ela esconde quase todas as imperfeições, quase todos os crimes.
Ninguém melhor do que ela para se aventurar nas ruas escuras, nos becos abandonados e nos apartamentos comunitários. De tira-gosto, provava alguma casa noturna, soturna e, pelos raros feixes de luz, era possível vê-la, quase que em preto em branco, exceto por aqueles lábios, que exalavam o desejo. Impossível não notar as meias pretas, rasgadas, por sobre a pele quase albina. Mas era discreta e misteriosa e isso chamava atenção. Sempre com uma garrafa na mão, ela dançava ao seu ritmo, ao seu gosto e, liberava aquele etílico no ar, em todas as direções. Esfregava na parede, onde seu suor de Heineken, Bacardi, Vodka, e qualquer outro álcool disponível dissolviam o pó de cocaína que caía como neve na pista de dança.
De entrada, nada melhor que saciar as ruas tímidas e encobrí-las de fumaça e euforia. Nada melhor que sentar em um banco, se é que poderia ser considerado um banco, e contemplar a Lua e deixar o vento levar as madeixas coloridas.
Sem rumo, sem lucidez, nunca se lembra do prato principal. Quando retoma a alguma consciência, se é que ela tem alguma, já está no fim da sobremesa, extasiando-se com o que não se lembra o que, mas sente. Em pouco tempo, o cheiro de entorpecentes, de mofo e de pessoas desconhecidas a incomoda, então, ela e seu, ou sua companheiro (a) levantam, ainda cambaleando, e descem aquelas intermináveis escadas de madeira desgastada de um prédio qualquer, caindo aos pedaços.
Sem destino, caminham iluminados pelo crepúsculo em busca de uma casa, de um quarto, ou até mesmo de um colchão, onde possam descansar e amar até o próximo crepúsculo chegar.
