De repente escureceu. Tudo ficou negro. Trovões e relâmpagos me assustavam. Chovia forte e cada gota que descia era como uma facada em minhas têmporas. A janela se aproximava e eu achava que cairia. O sofá tinha lepra e ela me alcançava. Eu desesperava, gritava e me encolhia. Ouvi a companhia, mas não conseguia chegar à porta. Entre vassouradas e pancadas consegui chegar à cozinha, mas não havia café e a xícara desaparecia. Abria a geladeira e só tinha cerveja, cachaça e vodka em cima da mesa. Uma bandeja, copo com gelo e uísque. Abria a porta e a visita era eu.
O Violino Vermelho mostrava as minhas histórias, as minhas vidas, perdidas, incompreendidas, opostas e contraditórias. Eu me via, como também me sentia. Não entendia como era possível estar no inferno e no céu, simultaneamente, no punk e no clássico, no preto e no branco, no certo e no errado. Como podia ser forte e fraca, boa e ruim, romântica e cética.
De repente eu escutava o riff, no entanto não localizava a fonte. A guitarra aumentava e a música tocava. Ninguém mais captava a freqüência, nem a visita. Dessa vez estava tudo colorido, geométrico, curvilíneo. As cadeiras sorriam e os livros se abraçavam.
Eu tentava me desvendar, a visita. Qual era o seu meu segredo meu? Porque só eu a via e já não via os demais, meus amigos? Tentei dialogar, fazia perguntas e inexplicavelmente já sabia a resposta. Um cigarro para me acalmar. Uma tragada, relaxada. Ela era quem liberava a fumaça e o meu pulmão era o que contaminava.
De repente, levantou-se, estávamos sentadas face a face, aproximou-se, entrou em meu corpo e por alguns segundos fiquei inconsciente.
De repente, escutava risadas e enxergava meus amigos.
De repente, tive consciência.
De repente, me encontrei.


