quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Visita

De repente escureceu. Tudo ficou negro. Trovões e relâmpagos me assustavam. Chovia forte e cada gota que descia era como uma facada em minhas têmporas. A janela se aproximava e eu achava que cairia. O sofá tinha lepra e ela me alcançava. Eu desesperava, gritava e me encolhia. Ouvi a companhia, mas não conseguia chegar à porta. Entre vassouradas e pancadas consegui chegar à cozinha, mas não havia café e a xícara desaparecia. Abria a geladeira e só tinha cerveja, cachaça e vodka em cima da mesa. Uma bandeja, copo com gelo e uísque. Abria a porta e a visita era eu.

O Violino Vermelho mostrava as minhas histórias, as minhas vidas, perdidas, incompreendidas, opostas e contraditórias. Eu me via, como também me sentia. Não entendia como era possível estar no inferno e no céu, simultaneamente, no punk e no clássico, no preto e no branco, no certo e no errado. Como podia ser forte e fraca, boa e ruim, romântica e cética.

De repente eu escutava o riff, no entanto não localizava a fonte. A guitarra aumentava e a música tocava. Ninguém mais captava a freqüência, nem a visita. Dessa vez estava tudo colorido, geométrico, curvilíneo. As cadeiras sorriam e os livros se abraçavam.

Eu tentava me desvendar, a visita. Qual era o seu meu segredo meu? Porque só eu a via e já não via os demais, meus amigos? Tentei dialogar, fazia perguntas e inexplicavelmente já sabia a resposta. Um cigarro para me acalmar. Uma tragada, relaxada. Ela era quem liberava a fumaça e o meu pulmão era o que contaminava.

De repente, levantou-se, estávamos sentadas face a face, aproximou-se, entrou em meu corpo e por alguns segundos fiquei inconsciente.

De repente, escutava risadas e enxergava meus amigos.
De repente, tive consciência.
De repente, me encontrei.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Suite nº 6

















Clube Social ou Social Clube. Primeira tacada. Bolas se colidindo e deixando os rastros pela mesa, que refletia a tonalidade da alegria, do arco-íris, dos homossexuais.

Através das linhas mágicas do Círculo de Viena era possível sentir todas as pulsações. Segunda tacada e a secretária alongou-se como um fluido, divergindo para a penumbra profunda. A cada nova tacada o ambiente se atualizava, outra vodka acabava e eu me dispersava. Uma natureza expansiva surgia em mim e não era possível controlá-la.

A nota estava aberta para a diástole, houve um breve I´m a Gipsy seguido por um longo distorcido derretido The Acid Queen, ambos inaudíveis para ouvidos convencionais, mas claros e exatos para quem tinha aprendido a interpretar os suspiros sintéticos.

Seis, Opus Mil e Doze em Ré Maior.

Cingida, a cinta liga rasgava, o deleite aproximava e voávamos e dançávamos o in-out. As Champagnes esvaziavam e os corpos brindavam. Sístole, diástole, contrações, ruídos, gemidos, dilatações...

De volta à partida, que estava decorada à los 50, iluminada pelo Blues e derretendo à Dali, eu via o Bang Bang!. Cabelos lançados, décadas laçadas, Mcdowell pintado, Marilyn Monroe planificada e Brad Pitt colado.

Sentindo-se bem no verão, Doçura, Doçura, eu não posso recusar. A vida é louca por todo o Universo existem pessoas sós esperando pelo quê? Pelo quê? Nada vai mudar meu mundo nem essa coisa que você faz. Os pássaros cantando para a luz que nunca se apaga. Londres chamando. Doçura, Nova York, 1993, quando eu voltar para o topo e falar da minha geração toda rosa vai ter tido espinho. É uma longa estrada para o lar, por isso não chore quando eu for, mulher Rock n Roll. Você sabe o meu nome, então não espere pelo arco-íris no escuro.

Última contração. Corpo refeito. Dilatação derradeira. Última tacada. Um minuto depois, joelho no chão, eu estava (des) acordada.

sábado, 15 de novembro de 2008

E a saga continua...

31 de Outubro, crepúsculo

Hora de acordar e aprontar para a festa. Não era necessário fantasia, pois minha pele já era pálida e o cabelo, negro. O batom vermelho disfarçava a fome e o blush, a morte.

Encontrei uns amigos e fomos, de ônibus, para nosso destino. Infelizmente o silêncio da noite não esconde as verdades. Sentei-me atrás de dois homens não simpáticos. Um deles levantou-se cambaleando, fedendo à álcool e fedendo à maconha e “pediu” um trocado, visto que acabara de sair da prisão e estava com fome. Infelizmente isso não era “Doces ou travessuras”. Fui obrigada a dar algumas moedas, que mais tarde comprariam O doce, assim como os outros passageiros.

Não demorou muito e chegamos ao local desejado: Drácuba. Subimos uma escada bem inclinada e prosseguimos até a última porta do corredor. A janela emitia uma luz vermelha e luzes de velas.

Uma carranca fumando um charuto cubano, envolvida entre teias e iluminadas pelas tochas na parede, nos recebeu, juntamente com os morcegos do corredor da casa.

Ao luar, vampiros e zumbis se refrescavam. Japonesas e Joaninhas conversavam. Transexuais dançavam. Minhas pupilas dilatavam, minha face corava. Era a sangria sendo absorvida. Meus sentidos se aguçavam e o frenesi era alcançado. Meus olhos sangravam.

À medida que dançava com Drácula, o cenário se transformava. Dançamos na Transilvânia e na Polônia. Em Paris e New Orleans. No Egito e no infinito. Unimos nossos sangues, nossos corpos e nossa solidão. Nos amamos mesmo sem coração.

Acordei espremida no caixão e o castelo queimava.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Porcos Malhados, Hienas Macabras

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem”

É impressionante como vários indivíduos tratam as pessoas como objetos descartáveis, como seres postiços. É impressionante como vários indivíduos têm o dom de distorcer a realidade e adequá-la à sua necessidade, mesmo inconscientemente. É impressionante o poder que vários indivíduos possuem de dêscobrir as estrias alheias e pô-las à mostra para aproveitar da vulnerabilidade para criticar, humilhar e apunhalar as pessoas.

É impressionante o prazer que vários indivíduos têm de colocar alguns em Xeque-mate. É impressionante como vários indivíduos sugam tudo o que você tem e depois te abandonam aos Urubus. É impressionante como vários indivíduos não mudam, não se desculpam, não sabem relevar e sim culpar e transferir a ferida.

É impressionante como vários indivíduos não se curam. É impressionante a força do poder manipulador dos Porcos Macabros. É impressionante a necessidade de vingança das Hienas Malhadas. É impressionante as suas risadas macabras...

Ainda assim é possível sobreviver, afinal, são nessas horas que descobrimos quem são os nossos Amigos, quem está ao nosso lado. Aprender a conviver com as pessoas é um desafio jamais vencido por muitos, porém os vencedores entendem que não se deve perder a cabeça com um porco, pois ele não é capaz de dialogar, raciocinar e abrir a mente. Não se deve dar ouvidos às hienas, visto que elas escutam demais e podem trocar o veneno, a cura e a carniça.

Enfim, as palavras matam, dilaceram, por isso tome cuidado ao pronunciá-las.
Enfim, os Ouvidos Olheiros estão à espreita, então não acredite em tudo o que se ouve, pois a realidade é uma ficção e cada mente possui um contexto diferente.

2008.11.10

Outros sobre o assunto:
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Houve uma vez...

Tudo parecia perfeito, a união fazia a força e não havia nada melhor do estarmos juntos, porém aconteceu muito rápido, que só me resta a saudade. Compartilhamos churrascos, viagens, choros, felicidades, agonias, segredos e nos tornamos uma família.

O que era belo se fragmentou, virou cacos, sorrisos falsos e olhares hipócritas. Brigas, discussões, mágoas. A ID venceu o Super-Ego. O Olhar superficial acha que continuamos os mesmos, embora não tenhamos mudado, deixamos de existir. Fomos incapazes de assumir os erros e pedir desculpas, o orgulho foi mais forte.

As falsas máscaras permanecem, assim como a incapacidade de dizer “eu te odeio” olhando no olho. Daqui a pouco muitos perderão a orelha. As diferenças foram aprisionadas e os pedidos de desculpas, guardados. Ninguém é capaz de dialogar e relevar. Enquanto isso, procuro o meu lugar.

Se em cima do muro é um lugar que não existe, onde estou?

Fragmentei-me em vários cacos?


2008.09.19

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Errada

Meu ouvido começou a fechar e o cenário a rodar. Eu estava em um plano espacial e temporal diferente dos demais. Já não sabia se o que via era realidade ou fantasia.

Levantei-me, olhei o espelho, mas não consegui enxergar a imagem, então fui ao banheiro enxaguar meus olhos e o Alex me olhava. Se o tempo passava eu não sei. Algumas vezes ele acelerava, outras, retardava e outras não o havia. Estava tudo congelado, hipnotizado, tudo num quadro, como DeLarge.

As risadas me engoliam e eu andava pelo apartamento, andava fisicamente e/ou psicologicamente. O Jack virava um fantoche e eu o acordava toda hora que abria a mochila.

De repente, a cara da Ísis ficou pendurada ao lado de seu pescoço e ela sorria, de repente eram 15:44 e 14:27, de repente tudo rodava e o mundo passava em um segundo, minha vida chegou em flashes e eu não conseguia alcançá-la, fiquei para trás, presa naquele plano.

Sentei-me no sofá e assisti a sala derretendo, desmoronando e o Alex observando, intacto, atemporal, aespacial.

Batimento acelerado, respiração eufórica, coração vidrado. Estava irritada e preocupada. Minha boca secava, a bochecha queimava e meu olho encabulava. A veia quase estourava. Olho as horas mais uma vez e ligo o despertador.

Vou à cozinha. Ao quarto e ao teto. Podia escutar o barulho do combustível de cada carro queimando, cada pessoa conversando. Escutava vozes. Escutava plantas. Escutava cervejas.

E o desespero me consolava e me piorava. Ele me dominava;

O despertador tocou, mas eu não acordei...
O ônibus passou e eu não voltei...
A Turquesa chegou e a Rio Negro me salvou...
Na Divina eu estou.

domingo, 9 de novembro de 2008

Lições de um Perpétuo

Nunca me conformei com a morte, pois sempre gostei de viver e de imaginar o futuro. Tinha medo dela porque já levara minha mãe e minha irmã. Não queria que me vencesse, então vendi minha alma.

No início foi bom, visto que não envelhecia, não me preocupava com o tempo, saía com várias mulheres só por curtição. Assistia a todos os filmes em cartaz, a todas as peças de teatro, shows e acompanhava a modernização da sociedade. A memória eterna tornava-me um homem culto, meu sexto sentido permitia que tocasse qualquer instrumento, vencesse qualquer jogo e meu olho reluzente seduzia a todos.

Um século depois, conheci a minha amada. Era uma pintora underground de Los Angeles, tinha madeixas negras, olhos azuis, curvas perfeitas, bronzeado ideal e seios fartos.

Foi hipnotizado por uma de suas pinturas que parecia a eternidade. Iniciei um diálogo e logo estávamos à vontade, conversando sobre a arte. Aproveitei meus conhecimentos acumulados e a impressionei. Consegui um almoço. Um jantar. Uma festa. Uma transa.

Apaixonamos-nos muito rápido e sentíamos que seria para sempre. Em um ano já morávamos juntos...

Como era possível amá-la daquela maneira? Estava enfeitiçado por seus gestos triviais. Amava-a pelo jeito como arrumava o sutiã, empilhava as revistas, tirava os óculos. Amava-a pelas covinhas de seu sorriso e pela cicatriz em sua barriga. Ela era perfeita.

Apesar da linha que separa o amor da fantasia ser bem fina, o que eu sentia por ela era amor. O amor de quem espera 100 anos pela inefável mulher. Seu corpo e sua alma estavam expostos e por isso eu a amava.

Criamos a nossa própria linguagem, que continha a história de nossa relação, portanto somente NÓS podíamos decifrá-la. Graças a Amber, adquiri um caráter, algo que um homem não adquire na solidão, por mais experiências e conhecimento que possua.

Tivemos nossas crises. Derrubamos muitas lágrimas, exaurimos excessivas palavras dispensáveis. Aprisionamos a raiva, o ciúme terrorista e depois vomitamos tudo. Machucamos-nos. Curamo-nos.

Como Amber não era para sempre, fui condenado à solidão perpétua...

500 anos se passaram desde que perdi a felicidade. Esse é o problema do amor. Há um grande risco de sermos felizes. E um amor como aquele só se vive uma vez.

O que me resta é habitar meu passado e lembrar como era bom entrar naquele corpo, como era bom acordar com aqueles olhos azuis, como era bom abraçá-la, protegê-la, amá-la.

Como o seu amor era bom!, como sua voz era a melodia de meus sonhos. Ela me completava.

Éramos nós. Agora, sou EU...

... Não se deve temer a morte e nem o medo, pois ele é um sentimento, e sentimentos não matam.