Nunca me conformei com a morte, pois sempre gostei de viver e de imaginar o futuro. Tinha medo dela porque já levara minha mãe e minha irmã. Não queria que me vencesse, então vendi minha alma.
No início foi bom, visto que não envelhecia, não me preocupava com o tempo, saía com várias mulheres só por curtição. Assistia a todos os filmes em cartaz, a todas as peças de teatro, shows e acompanhava a modernização da sociedade. A memória eterna tornava-me um homem culto, meu sexto sentido permitia que tocasse qualquer instrumento, vencesse qualquer jogo e meu olho reluzente seduzia a todos.
Um século depois, conheci a minha amada. Era uma pintora underground de Los Angeles, tinha madeixas negras, olhos azuis, curvas perfeitas, bronzeado ideal e seios fartos.
Foi hipnotizado por uma de suas pinturas que parecia a eternidade. Iniciei um diálogo e logo estávamos à vontade, conversando sobre a arte. Aproveitei meus conhecimentos acumulados e a impressionei. Consegui um almoço. Um jantar. Uma festa. Uma transa.
Apaixonamos-nos muito rápido e sentíamos que seria para sempre. Em um ano já morávamos juntos...
Como era possível amá-la daquela maneira? Estava enfeitiçado por seus gestos triviais. Amava-a pelo jeito como arrumava o sutiã, empilhava as revistas, tirava os óculos. Amava-a pelas covinhas de seu sorriso e pela cicatriz em sua barriga. Ela era perfeita.
Apesar da linha que separa o amor da fantasia ser bem fina, o que eu sentia por ela era amor. O amor de quem espera 100 anos pela inefável mulher. Seu corpo e sua alma estavam expostos e por isso eu a amava.
Criamos a nossa própria linguagem, que continha a história de nossa relação, portanto somente NÓS podíamos decifrá-la. Graças a Amber, adquiri um caráter, algo que um homem não adquire na solidão, por mais experiências e conhecimento que possua.
Tivemos nossas crises. Derrubamos muitas lágrimas, exaurimos excessivas palavras dispensáveis. Aprisionamos a raiva, o ciúme terrorista e depois vomitamos tudo. Machucamos-nos. Curamo-nos.
Como Amber não era para sempre, fui condenado à solidão perpétua...
O que me resta é habitar meu passado e lembrar como era bom entrar naquele corpo, como era bom acordar com aqueles olhos azuis, como era bom abraçá-la, protegê-la, amá-la.
Como o seu amor era bom!, como sua voz era a melodia de meus sonhos. Ela me completava.
Éramos nós. Agora, sou EU...
... Não se deve temer a morte e nem o medo, pois ele é um sentimento, e sentimentos não matam.
Um comentário:
o perpétuo passa a lição e os não duráveis não a apreendem.
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