terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Tribal 2012

De vez em quando a consciência dá lugar ao inconsciente e tudo se mistura e reaparece. É como um sonho, onde nada faz sentido, mas na verdade tudo faz, tudo o faz, tudo pode ser. Todas as experiências, todos os questionamentos, todas as pessoas, tudo que um dia ficou para traz pode voltar, ainda que por alguns décimos de segundos e isso é uma das melhores coisas da vida. Crescer sem deixar de ser, sem deixar de se permitir, sem se censurar, sem desaparecer.

 Estávamos todos em volta de uma grande praça cercada de prédios e tochas, mas dessa vez não tinha Karaokê, a Utopia não tinha mais graça, deixou de ser divertida, dessa vez, nem na porta passamos. Estávamos à procura de algo diferente, algo novo que não sabíamos exatamente o que. Apenas um endereço.

O portão comprido de grades de metal fundido há anos e que protegia uma casa oriental vermelha era o que procurávamos. Algo bem ilegal, onde todos atravessavam a rua para não passar na frente.

Sem saber direito como, pois a fumaça encobria o caminho, despistamos os guardas e conseguimos entrar. Apenas três.

Tudo por dentro era bem vermelho também e tudo era muito escuro. Pouca luz, muita fumaça, muito incenso, muita erva e mais fumaça. E sem Burlesco!O chefe da tribo, com um olhar desconfiado hesitou um pouco antes de nos mostrar a experiência. Uma de cada vez. Fui a segunda. Um pouco trêmula e ao mesmo tempo aérea, sem sentir meu corpo, fui subindo a escada em caracóis e a cada degrau, mais inebriada ficava, quase podia voar. A cada degrau uma nova sensação, era como se eu não mais existisse como matéria. Enfim, no segundo andar, encontrei o que procurava. Em uma das prateleiras feitas de Adobe vermelho, coberto por um pano com estampa tropical estava ele. Era um pote de vidro, pequeno com um substância preta, cremosa, totalmente opaca. Não sabia ao certo o que era e nem como utilizá-lo. Não tinha cheiro, não era volátil. Ao lado do pote de vidro havia um pincel. Sim, era um pincel de delineador e aquela era a tinta especial, a tinta mais desejada e tão desconhecida. Não hesitei em passar as cerdas de crina de cavalo na substância preta. Um risco, outro risco e um olho estava pronto. Não demorei para terminar o outro. Agora era só esperar o efeito chegar.

Lembrar? Não foi possível, nada poderia sair de lá. Levo comigo somente a sensação de leveza, flutuante, fluida, ao mesmo tempo imergida em um volúpia incontrolável. Lá não existia tempo, não sei quanto tempo fiquei, como despertei e nem como voltei...

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