Debaixo do chão é onde as coisas acontecem. Quando se pensa que já se viu de tudo e já se fez de tudo, faz-se mais e vê-se demais. Ele é o abrigo dos notívagos e dos vampiros. Vampiros não vivem à luz do sol sempre acabam iluminados pela lua.
Consegui quebrar essa regra durante vinte dias de minhas férias. Vinte dias sendo “normal”, comum, vinte dias enquadrada. Péssimo não foi, ótimo, muito menos.
O sol cega, queima, cansa. Os humanos correm contra o tempo, são presos pelo horário e pela meta. Eles julgam e definem o que é certo e errado, feio e bonito, o que presta ou não.
A falsidade ri, o preconceito sorri e a alma chora. O Estado te controla, a TV te comanda e a liberdade vai embora. A mente fechada te aprisiona.
Já não suportava mais shoppings, compras, presentes, sorrisos falsos, frases prontas, axé, funk e, principalmente, jovens vazios. Dói em pensar que esses jovens que sabem apenas dançar funk, axé e trance são os adultos de amanhã e os exemplos para as crianças. Ainda bem que exceções existem!
Estava encabulada dessa vida. Definitivamente, vampiros precisam de sangue e da mordida que leva ao êxtase e te faz pulsar intensamente. Vampiros precisam de igualdade e liberdade. Nós gostamos de pensar e questionar, amar e escutar. Precisamos de música, poesia, loucuras, emoção e podemos brincar com a morte.
Resolvi reiniciar as minhas férias, ou melhor, começá-las. Busquei abrigo sob o chão. Quem prova dele jamais quer largá-lo. Ele é escuro, quente, bonito, feio e sujo. Lá quase não existe pré conceitos. Todos são iguais e todos são diferentes. É a contra cultura, uma opção de vida.
Antes, porém, de irmos para o subsolo, meus amigos e eu, como de costume, flanamos ruas desertas da noite. Absortos, compartilhamos nossos devaneios no bar e bebemos e rimos muito. Quando já estávamos extasiados, descemos.
O inferninho já estava inebriado, assim como eu. Fechei os olhos e me perdi naquele enlevo. Nada me preocupava, eu apenas acompanhava as músicas e libertava o corpo. Podia passar dias dançando, amando, beijando, enlouquecendo, mas o sol já estava nascendo, então, tive que voltar para o caixão e descansar.
Ao acordar, com o por do sol, me perdi na noite. Nada melhor que um show de Jazz, blues, piano, violino para acordar a lua. Após aquele espetáculo, precisava ficar sozinha para voltar daquele orgasmo.
E assim foram as minhas noites, poesia, leitura, música, sinuca, praça da Savassi até o sol raiar, sexo, amor, rock n roll, álcool, Mary Jane, dama de branco, paz, teatro, shows, espetáculos, viagens mentais e materiais, praia, Cilada, lua, cerveja, sangria, caipirinha, flamejante, homens, mulheres, amigos, esquilos...e a arte sempre no meu caminho.
A arte liberta, ela é ousada, distorcida, diferente. Ela intimida, é atrevida. Quem experimenta dela jamais a largará. Ele e ela formam o casal perfeito. Um não existe sem o outro. Eles são um estilo de vida, o porto seguro de nós vampiros e de todos que precisarem. Não há limite, não há exclusão, ao contrário da sociedade padrão, alimentada pelo ódio, ganância, corrupção, inveja, preconceito. É estranho como uma população limita-se à sua condição. Seu prazer é a destruição alheia. Tanto sofrimento em vão, porque no fim, todos nós terminamos no caixão, embaixo do chão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário