Extremamente romântica, Juliana idealizava o amor e sonhava com o seu príncipe encantado, pois já havia o encontrado, Antônio, homem solteiro e bem humorado que trabalhava na mesma empresa que ela, porém no setor de marketing. Trocando apenas um “bom dia!” no corredor ou sorrisos na fila do café, Juliana apaixonara-se sozinha. Só Lise, que de amor por Fido ardia. Amor platônico e incontrolável que dominava o corpo e a mente dessa mulher sistemática. Tudo em sua vida era programado, milimetrado, seja a distância dos produtos de limpeza em sua casa, seja o horário de abrir o portão, a maneira de abotoar o sutiã, empilhar as revistas ou tirar os óculos.
Juliana nunca teve muitos amigos, preferia passar horas absorta na literatura de Claudio Manuel da Costa, Gonçalves Dias, Lord Byron e Florbela Espanca, idealizando a realidade e sonhando com tudo que não era. Apesar da linha que separa o amor da fantasia ser bem fina, ela não saia da linha. Sua vida era alimentada pelo sorriso inebriante de Antônio todos os dias na agência. Nada soava mais perfeito, até quem em um dia ensolarado de primavera Antônio apareceu com uma aliança na mão direita. Nesse exato momento, tudo ficou preto, tudo girava, Juliana fora invadida por milhões de sensações sinestésicas depressivas, incompreendidas.
Tomada por um surto de loucuras, resolveu fazer jus às palavras de Byron. Foi para casa, abriu uma garrafa de vinho e naquele vasto giro, em que se enleia, ao curioso passo já receia que lhe possa faltar segurança. Mais uma garrafa de vinho. E assim foi por dias, embriagou-se sozinha, experimentou várias pessoas sem faces e quando deu por si, estava deitada, nua, em sua cama com algumas seringas no chão.
Em seus últimos suspiros, imaginava-se casando com Antônio. Só havia os dois. Ele, de terno preto, segurando um buquê de rosas vermelhas e ela com um lindo vestido branco com detalhes em renda. Ambos em frente a um enorme coração vermelho de balões grandes e pequenos em fileiras intercaladas, milimetricamente posicionadas. Quando tudo estava como deveria estar, o coração vermelho começou a se transformar em arame e no momento do beijo, uma aliança, surgiu na mão direita de Antônio e uma piranha transparente surgiu no penteado de Juliana. Já inconsciente, tudo que ela enxergava era uma luz azul que se ampliava e entre os balões.
Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei, se te perdi...
Abalou-se o que sinto; o orgulho,
Que o mundo não pôde curvar,
Curvou-se a ti: se a abandonaste,
Minha alma vejo-a a me deixar.
O pulsar ardente de um coração vermelho quente parava l e n t a m e n t e .
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